A demência é considerada uma síndrome clínica, e não uma parte inerente do processo de envelhecimento. Ela é caracterizada pelo declínio cognitivo e/ou por alterações neuropsiquiátricas que passam a interferir nas atividades diárias e na independência do indivíduo.
A realidade clínica da demência é, em sua maioria, a da multimorbidade, termo que descreve a coexistência de múltiplas condições médicas em um único paciente. Uma vez que essa doença atinge principalmente idosos, a presença de outras condições crônicas é a norma, e não a exceção.
Essa interseção de doenças, que afeta a maioria dos pacientes, complica significativamente o manejo clínico e exige abordagens multidisciplinares para otimizar o tratamento e melhorar a qualidade de vida.
O que são comorbidades ligadas à demência?
Comorbidades relacionadas à demência são outras doenças ou condições de saúde que a pessoa diagnosticada com demência possui. Essas condições podem contribuir para a causa da demência, ou serem consequências dessa síndrome clínica. Alguns exemplos comuns são:
- Doenças cardiovasculares: A hipertensão e o histórico de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) podem contribuir com a perda de oxigênio e nutrientes cerebrais, o que contribui para a neuroinflamação. Esta, por sua vez, acelera o envelhecimento cerebral, aumentando os riscos de desenvolvimento de demência ou da piora do quadro.
- Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2): A DM2 gera uma disfunção metabólica que pode afetar o metabolismo da glicose no cérebro. Isso também contribui para maiores danos neuronais.
- Depressão: A depressão pode acontecer tanto devido à diminuição de neurotransmissores cerebrais, quanto graças aos impactos da demência na qualidade de vida do paciente.
- Distúrbios do sono: Pessoas diagnosticadas com demência podem apresentar alterações nos padrões cerebrais que afetam a qualidade do sono, causando agitação.
O Alzheimer é uma comorbidade da demência?
Não. O Alzheimer é a manifestação mais comum da demência, caracterizada pela deterioração cognitiva e da memória, comprometimento progressivo das atividades de vida diária e uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e de alterações comportamentais.
Por que as comorbidades relacionadas à demência acontecem?
A relação entre a demência e outras doenças crônicas não é aleatória — ela é, na verdade, frequentemente mediada por vias biológicas compartilhadas. Um exemplo é a neuroinflamação, uma resposta inflamatória do cérebro, que pode acelerar o envelhecimento cerebral e aumentar o risco de desenvolvimento do Alzheimer.
Estudos observam também que doenças crônicas que causam inflamação sistêmica, como a Diabetes Tipo 2 e as doenças cardiovasculares, podem contribuir para a neuroinflamação, danificando os neurônios e precipitando o declínio cognitivo. Nesse sentido, elas podem ser tanto fatores que contribuem para o desenvolvimento da demência, quanto doenças que se apresentam como consequência da deterioração neuronal.
O mesmo acontece com as comorbidades neuropsiquiátricas, como a depressão, a psicose e os distúrbios comportamentais e do sono. Esses sintomas são comuns em pacientes com demência tanto devido à progressão da doença, quanto aos seus impactos na qualidade de vida.
Quais cuidados ter com as comorbidades ligadas à demência?
As abordagens de cuidado devem levar em consideração as comorbidades observadas e o histórico de saúde da pessoa diagnosticada com demência. Por isso, devem ser decididas com o apoio de um profissional médico.
As intervenções não-farmacológicas podem incluir terapias diversas, para melhorar a qualidade de vida, a cognição e as atividades diárias. Elas podem oferecer benefícios para o bem-estar e reduzir a necessidade de internação.
Já as intervenções farmacológicas podem incluir medicamentos próprios para a demência, com o objetivo de aliviar os sintomas cognitivos e retardar a progressão da doença. Outros medicamentos, como antidepressivos e antipsicóticos, também podem ser considerados.
No caso de abordagens farmacológicas, é indispensável o acompanhamento médico para evitar interações medicamentosas não desejadas e para monitorar doses e efeitos colaterais.
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Referências bibliográficas
SANTIAGO, J.; POTASHKIN, J. The Impact of Disease Comorbidities in Alzheimer’s Disease. Front Aging Neurosci., v. 13, 2021. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7906983/
PEREIRA, L. et al. Manifestações e comorbidades da doença de Alzheimer: uma revisão sistemática. Lument et virtus, v. 15, n. 41, 2024. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/LEV/article/download/2508/2943/9073